sábado, 30 de julho de 2011

Homofobia mata 126 pessoas só no primeiro semestre de 2011

Por Márcio Retamero* em 22/07/2011 às 13h50

Márcio Retamero: Homofobia mata 126 pessoas só no primeiro semestre de 2011

Escrevo este texto sob forte emoção e dor profunda. Esta dor tem nome: luto. Dados do Grupo Gay da Bahia, colhidos das notícias das seções policiais das mais variadas mídias brasileiras, contam que no primeiro semestre de 2011, 126 vidas foram ceifadas, vítimas da homofobia.

O número é assustador! 126 pessoas tiveram seus sonhos, seus projetos, suas vidas arrancadas delas. 126 famílias enlutadas: mães, pais, irmãos que sofrem a ausência de seus familiares.

‎"Ouviu-se um clamor em Ramá, pranto, [choro] e grande lamento; era Raquel chorando por seus filhos e inconsolável porque não mais existem." (Mateus 2.18)

A homofobia não assola somente as pessoas LGBT. Toda a sociedade sofre com esta mazela, este câncer. Prova disso é o triste episódio acontecido no interior de São Paulo com um pai e seu filho, que abraçados, foram confundidos com um casal gay e por isso, foram surrados por um grupo de doentes homofóbicos. O pai teve a orelha decepada!

O que mais me entristece é saber que por ai circula um discurso mesquinho e equivocado, que pode ser ouvido inclusive nas bocas de pessoas LGBT: "não aguentamos mais falar de homofobia", "alguma coisa tais pessoas fizeram para serem mortas", "Este discurso sobre homofobia é um retrocesso" etc.

O crime de homofobia sempre é assinado com crueldade, muita crueldade. As marcas nos corpos das vítimas atestam e é uma pena que nossa sensibilidade bem rasa, não tolera a visualização das imagens desses corpos, talvez assim, falaríamos menos besteiras e tomaríamos consciência de uma vez por todas da urgência da questão.

O que está acontecendo em torno do PLC 122/06 deveria causar indignação e levar milhares de pessoas às ruas, não para uma micareta fora de época, mas para um clamor político. Nos últimos anos a militância LGBT lutou para colocar a homofobia na agenda do país e lutou para equiparar a homofobia ao crime do racismo. Somos informados que existe a intenção de um novo projeto de lei, em fase de debates com a senadora Marta Suplicy, a presidência da ABGLT e os senadores da Frente Parlamentar Evangélica. O PLC 122/06, que nas palavras da senadora Marta está "demonizado", seria abandonado, arquivado e um substitutivo seria construído em diálogo com as lideranças fundamentalistas.

Nesses últimos anos o que mais vi foi equívocos em torno do PLC, erros estratégicos, ufanismo, certezas idiotas e muita mentira. De ambos os lados. O diálogo com os evangélicos fundamentalistas já era importante anos atrás e embora muitos tivessem apontado isso lá atrás, eu inclusive, fomos completamente ignorados. Cantava-se sempre a mesma "cantinela" (O Estado é laico!) e enquanto isso crescia a Frente Parlamentar Evangélica Fundamentalista, crescia a população evangélica, enriquecia os líderes deste segmento social, cada vez mais presente na mídia e, enfim, conseguiram ganhar as mentes e os corações do povo do Brasil contra o PLC 122. Aliados políticos de peso como Iara Bernardes e Fátima Cleide colheram derrotas nas urnas por conta da desta bandeira.

A "estratégia" da militância LGBT de ignorar o fundamentalismo religioso foi um tiro no pé. Qual a novidade? Sempre subestimamos nossos inimigos, não é verdade? Para a nossa desgraça.

Hoje nos encontramos nesta altura: certamente o PLC 122/06 será arquivado ou derrotado no plenário do Congresso Nacional (eu prefiro que seja derrotado! O arquivamento não deveria ter o aval da população LGBT!) e um novo projeto será elaborado em diálogo com os parlamentares evangélicos fundamentalistas; este sairá o vencedor. Acontece que este projeto será inócuo, muito aquém do que desejávamos e não suportarei ouvir clamores da militância em torno deste circo, desejando o nosso apoio e mobilização. Não se cuida da casa depois que esta é arrombada, cuida-se antes e não adianta usar agora a questão do diálogo e alianças, pois não somos idiotas. Isso deveria ter acontecido lá atrás e ponto final!

O cenário está ruim demais! Eu peço que não nos calemos! Eu não quero um arremedo de lei e creio que você também não deseja isso. Nós precisamos dizer isso à senadora Marta e ao presidente da ABGLT. Nós não podemos apoiar o arquivamento do PLC 122/06. Nós temos que nos posicionar e eles precisam nos ouvir. Não podem construir um novo projeto sem a nossa efetiva participação, sem nos escutar, sem o amplo apoio do movimento e das pessoas LGBT. Eles não têm essa carta branca. A ABGLT não representa a totalidade da população LGBT no Brasil. Existem outras vozes e vocês tem que nos ouvir!

terça-feira, 14 de junho de 2011

Carta aberta do Fórum Europeu LGBT ao Papa Bento XVI

Publicamos aqui a Carta Aberta do Fórum Europeu de Grupos Cristãos de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros, com sede em Berlim, a Bento XVI para que preste atenção aos direitos humanos.

Conforme publicamos aqui no início da semana, o texto da carta foi aprovado em Berlim, no dia 7 de maio de 2011, na conferência anual dos delegados do Fórum, e foi entregue no Palácio Apostólico, no Vaticano, no dia 10 de junho.

Eis o texto, reproduzido via IHU com grifos nossos.

Santo Padre, apelamos ao senhor para pedir uma condenação dos atos de violência contra Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros (LGBT) e pedimos a colaboração de Vossa Santidade para a descriminalização dos atos homossexuais em nível mundial.

O silêncio de Vossa Santidade é muitas vezes interpretado pelas pessoas que cometem atos de violência, tortura e assassinato como um parecer favorável às suas ações.

Por exemplo, em janeiro deste ano, David Kato, um ativista na luta pelos direitos das pessoas LGBT, foi brutalmente assassinado na Uganda.

Episódios de violência, torturas e assassinatos contra as pessoas LGBT são verificados frequentemente em diversas partes do mundo, e quem as põe em prática está muitas vezes convicto de sua conformidade à vontade da Igreja Católica.

Esse convencimento é reforçado pelo fato de que, em dezembro de 2008, a Santa Sé ter se recusado a apoiar a Declaração das Nações Unidas sobre a orientação sexual e a identidade de gênero.

A declaração contém um parágrafo que exorta a todos os Estados a assegurar que a orientação sexual ou a identidade de gênero não possam ser, em nenhuma circunstância, a base para a aplicação de penas criminais, particularmente de execuções, prisões ou detenções.

Além disso, apelamos à Vossa Santidade para que sejam fornecidas a todos os cristãos informações claras a respeito das passagens da Bíblia que são usadas para justificar esses atos aberrantes.

Assim como as passagens em favor da escravidão, os versículos que apoiam o assassinato de pessoas que praticam atividades sexuais com pessoas do mesmo sexo não devem ser interpretadas literalmente.

Existe ainda uma forma de pressão por parte de alguns expoentes do clero da Igreja Católica romana sobre os cristãos LGBT para se submetam a "terapias reparadoras" para modificar sua própria orientação sexual. Essa estratégia da Igreja e o pedido às pessoas
LGBT que vivam a condição da castidade são causa de muitas tragédias, incluindo suicídios e graves estados de depressão, entre aqueles que tentam observar e seguir heroicamente os ensinamentos da Igreja.

Por outro lado, segundo estudos mais recentes de psiquiatria e de psicologia, a orientação sexual não pode ser modificada, e essas tentativas, por isso, muitas vezes têm como consequência graves danos psicológicos. Além disso, uma vida de castidade não pode ser exigida a quem não sente dentro de si essa vocação.

Aos cristãos LGBT, não pode ser negado o direito fundamental a uma relação afetiva, independentemente do gênero da pessoa amada. Como a ciência demonstrou que a homossexualidade é uma variante da sexualidade, apelamos para que essa evidência científica seja incluída nos ensinamentos da Igreja.

Em consequência, pedimos a Vossa Santidade que não se dê mais como indicação que as pessoas homossexuais devam se submeter a terapias, mas que, ao contrário, tenham direito a uma vida que preveja também uma relação afetiva no sinal da fidelidade.

Os benefícios sociais e pessoais disso são: uma vida feliz, saúde mental, capacidade de dar o melhor de si no trabalho e no apoio aos outros.

De outra forma, a vida muitas vezes se transforma em uma triste existência com uma série de inúteis terapias psicológicas e psiquiátricas, perda da fé em Deus, de humanidade e amor, como bem testemunham as frequentes cartas e testemunhos de cristãos LGBT.

Em todo o mundo, muitas lésbicas, gays e transgêneros vivem relações baseadas no amor, na fidelidade e na assistência recíproca. Assim como nas relações heterossexuais maduras, o amor é sobretudo uma experiência espiritual e depois também física. Infelizmente, por causa do preconceito e da desinformação, muitas pessoas associam o conceito de homossexualidade só ao amor físico.

Com referência à declaração de Vossa Santidade de dezembro de 2008 sobre a necessidade de proteger a humanidade como o ecossistema de uma floresta tropical, seguindo a mesma metáfora, podemos dizer que as pessoas LGBT representam uma espécie menos numerosa, mas que se encontra constantemente no ecossistema e, como sabemos, toda espécie é importante e necessária para garantir o equilíbrio criado por Deus.

Apelamos ao senhor para que reconsidere a posição da Igreja sobre as relações entre pessoas tanto do mesmo sexo, quanto transexuais, apoiando também a aceitação e a bênção dessas relações no interior da Igreja.

Apelamos a Vossa Santidade para que se cesse de pressionar os católicos a votarem contra leis que autorizem relações entre pessoas do mesmo sexo.

As relações tanto entre pessoas tanto do mesmo sexo, quanto transexuais, não constituem um perigo para a existência da família tradicional, mas, na realidade, sustentam e elevam os valores da família e do matrimônio. As pessoas LGBT representam só um pequeno percentual de toda a população, percentual que permanece constante.

A experiência de não aceitação dos jovens homossexuais e transgêneros, por parte de suas famílias e da Igreja, quase sempre gera problemas no desenvolvimento das suas personalidades. As consequências são muitas vezes dramáticas e podem se concretizar, por exemplo, em tentativas desesperadas de contrair matrimônios heterossexuais, em mascarar sua própria orientação sexual ou em escolher a vida religiosa, mesmo na ausência de vocação.

Das motivações que expusemos, deduz-se como o fato de criar uma atmosfera segura e acolhedora, que permita que as pessoas LGBT sejam elas mesmas, é importante para toda sociedade.

O Catecismo da Igreja Católica afirma que as pessoas homossexuais devem ser tratadas com respeito, compaixão e sensibilidade. Respeito e sensibilidade deveriam ser concedidos a todos, independentemente da orientação sexual ou da identidade de gênero. Se fosse verdadeiramente assim, a compaixão não seria necessária.

Os comportamentos e as opiniões homofóbicas são particularmente dolorosos quando feitos por quem se declara cristão, seja leigo ou religioso, e não são certamente uma forma de respeito.

Deus abençoe Vossa Santidade.

Berlim, 7 de maio de 2011

Diane Xuereb (Holanda/Malta)
Dr. Michael Brinkschröder (Alemanha)
(Copresidentes do Fórum Europeu dos Grupos de Lésbicas, Gays,
Bissexuais e Transgêneros Cristãos em nome dos grupos membros

Grupos membros do Fórum Europeu dos Grupos Cristãos LGBT (em junho de 2011):

Armênia - We For Civil Equality NGO
Áustria - Homosexuelle und Glaube (HUG)
Bélgica - La Communauté du Christ Libérateur
Estônia - Geikristlaste Kogu (Associação de Gays Cristãos)
Finlândia - Arcus
França - Davi & Jônatas
Alemanha - AG (Arbeitsgemeinschaft) Schwule Theologie e.V. /
Labrystheia, Netzwerk Lesbischen Theologinnen in und nach der
Ausbildung / Lesben und Kirche (LuK) / Maria und Martha Netzwerk /
Netzwerk Katholischer Lesben / Projekt Schwul und Katholisch in der
Gemeinde Maria Hilf (PSK Maria Hilf Frankfurt) / Ökumenische
Arbeitsgruppe Homosexuelle und Kirche (HuK)
Itália - Gruppo del Guado / Gionata / Gruppo Varco / Nuova Proposta
Letônia - Adverta Evangeliska Draudze/Congregação Evangélica Aberta
Malta - Drachma
Moldávia - HomoDiversus
Holanda - Landelijk KoördinatiePunt groepen kerk en homoseksualiteit
(LKP) / Netwerk Mirre / Werkverband van Homotheologen (WHT) /
Werkverband van Katholieke Homo-Pastores (WKHP) / Åpen Kirkegruppe /
Wiara i T?cza (Faith and Rainbow) / MCC Bucharest (Igreja Comunitária
Metropolitana, Região 5)
Rússia - Light of the World (Moscou)
Eslováquia - Ganymedes
Espanha - Associació Cristiana de Gais i Lesbianes (ACGIL) /
Federación Estatal de Lesbianas, Gays, Transexuales y Bisexuales -
FELGBT)
Suécia - EKHO Sweden
Suíça - 'C+H' (The Lesbian and Gay Christian Group of Geneva) / CooL
(Christliche Organisation von Lesben)
Lesbische und Schwule Basiskirche / Basel
Ucrânia - Church of St Cornelius
Reino Unido - Changing Attitude / Evangelical Fellowship for Lesbian
and Gay Christians / Lesbian and Gay Clergy Consultation / Lesbian and
Gay Christian Movement / Quest / Roman Catholic Caucus in the LGCM /
Courage

Fonte: www.betelrj.com

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Amai-vos uns aos outros: Basta de Homofobia por Marcio Retamero

Está aberto o debate polêmico em torno do tema escolhido pela APOGLBT para a maior Parada do Orgulho do mundo, a de São Paulo!

De um lado, temos os que consideram a escolha do tema um equívoco; de outro, os que ponderam no atual contexto sócio-político brasileiro e conseguem enxergar no tema escolhido uma oportunidade, talvez pela primeira vez, de enfrentar o fundamentalismo religioso, que tanto mal tem feito às pessoas LGBT e às instituições políticas do nosso país.

Eu estou entre os que enxergam na escolha do tema a oportunidade de tratarmos publicamente, de maneira séria e responsável - e coletivo-democrática - sobre o espinhoso e maléfico fundamentalismo religioso de vertente "cristã". Na verdade, creio que passamos da hora de enfrentar este tema e debatê-lo publicamente!

Lamento os que enxergam na escolha do versículo bíblico cristão um equívoco e até entendo o temor de misturar temas como homofobia e religião ou reivindicação de direitos e religião, mas não creio que a intenção da APOGLBT seja misturar os temas, mas denunciar, usando a Lei do Amor transmitida por Jesus, a prostituição nefanda e nojenta que assola o Brasil nos nossos dias e que tem minado o avanço das agendas de Direitos Humanos em nossa pátria: o casamento nefasto de política e religião, ou melhor, o uso da religião para instalar entre nós um Estado Teocrático de fato, mas não oficial.

É urgente este debate em torno do uso da religião pela política e do assalto pela vertente fundamentalista religiosa das instituições democráticas no Brasil e creio que é exatamente isso que a APOGLBT deseja com a escolha do tema em questão. Se alguém duvida do debate urgente e necessário desse tema, precisa de colírio dos bons ou de coragem para publicamente assumir que alguns desejam a manutenção do atual estado das coisas entre nós, motivados, talvez, pelo tal senso de autopreservação. Leia Mais...

Marcio Retamero: é teólogo e historiador, mestre em História Moderna pela UFF/Niterói. É pastor da Comunidade Betel/ICM RJ e da Igreja Presbiteriana da Praia de Botafogo. É autor de "O Banquete dos Excluídos" e "Pode a Bíblia Incluir?"

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Afinal, a Bíblia aceita ou não os gays?

Afinal, a Bíblia aceita ou não os gays?

Não foi à toa que eu resolvi trazer esta postagem na semana do Natal.

Desde quando eu criei este blog tenho recebido muitos e-mails de agradecimentos de gays e lésbicas de toda a parte do Brasil (alguns até de países de língua portuguesa do exterior) que se sentem ajudados de alguma forma com os artigos aqui postados, o que me traz uma enorme sensação de estar no caminho certo.

Mas entre estas mensagens gratificantes, também recebo muitos e-mails de homossexuais que sofrem com conflitos existenciais por causa de sua sexualidade. A maioria destes são cristãos. Justificável, pois é do conhecimento de todos que o cristianismo, a maior religião em número de adeptos do mundo, é também aquela que mais tem perseguido os homossexuais ao longo da História.

Mas afinal, a Bíblia condena mesmo os gays?

Quem vai responder isto é o Reverendo Márcio Retamero, teólogo, Mestre em História Moderna (UFF/Niterói), Pastor da Comunidade Betel e da Igreja Presbiteriana da Praia de Botafogo (RJ), militante pela inclusão LGBT na Igreja Cristã e pelos Direitos Humanos e colunista da revista eletrônica A CAPA.

Quando fui apresentado ao Reverendo, na ocasião da noite de autógrafos do amigo Alexandre Calladini, confesso que fiquei um pouco reticente. Como um budista praticante que sou, às vezes mantenho um certo distanciamento de alguns tipos de religiosos cristãos, por diferenças básicas de nossas filosofias e porque cristãos geralmente defendem suas crenças de forma exasperada e calorosa… “O que dirá um Pastor!”, imaginei.

Mas, felizmente, meus pré-julgamentos foram todos por água abaixo logo no primeiro “dedo de prosa”. O carisma e a coerência do Rev. Márcio Retamero foram suficientes para que nossa conversa se estendesse do Museu da República até uma mesa de um restaurante numa noite pra lá de quente do Rio de Janeiro, em um bate papo super prazeroso que me fez perceber que há uma luz se acendendo para os gays cristãos “excluídos” e que no meio de tanto fundamentalismo existem, sim, pessoas intelectualizadas e lúcidas dispostas a fazer o bem.

Confiram a entrevista com o Rev. Márcio Retamero e saibam mais sobre o livro Pode a Bíblia Incluir?, que ele acabou de lançar pela Editora Metanóia. E bom Natal a todos! ;)

Subvertendo Convenções – Seu livro fala em “desconstruir” a Bíblia, dogmas e pensamentos teológicos para uma possível leitura inclusiva das escrituras. O que seria esta “desconstrução” ?

Desconstrução bíblica é desvelar, desvendar o texto, buscar seu local de origem, sua situação histórica, os significados das palavras hebraicas [Primeiro Testamento] e gregas [Segundo Testamento], línguas originais da Escritura. É, também, buscar informações sobre os autores, a construção dos textos, o público alvo daqueles textos. Interdisciplinaridade é a palavra chave aqui, pois a história, a antropologia, a arqueologia, a fililogia etc. nos auxiliam neste processo de desconstrução. É preciso desconstruir também o ciclo hermenêutico, ou seja, a interpretação aceita majoritariamente daqueles textos. Quando partimos do método histórico-crítico de análise das Escrituras, o único que serve à teologia inclusiva, feminista, libertária, então, enxergamos coisas ali postas jamais vistas.

SC – Sua posição é clara ao apontar os deputados e senadores da Frente Parlamentar Evangélica como os principais inimigos da causa LGBT do Brasil. Na sua opinião, de que forma o fundamentalismo pode ser combatido?

O fundamentalismo tem que ser combatido em três frentes, a princípio: no nível político, respeitando a Carta Magna do Brasil, que proíbe todo e qualquer tipo de preconceito; que garante igualdade diante da Lei para todos e todas; que estabelece o Estado laico. É inacreditável o “casamento” pernicioso, maléfico, pervertido entre a religião e a política no Brasil. As últimas eleições provaram que, entre nós, infelizmente e para a desgraça de muitos, religião e política estão de mãos dadas.

O segundo nível é o legal: fundamentalistas se escoram na “liberdade de expressão” para atacar minorias sociais como os LGBTs e os religiosos de matriz africana. A liberdade de expressão é limitada numa democracia, pela lei. Liberdade de expressão não é salvo-conduto para sair por ai dizendo o que lhe vem à cabeça sem responsabilidade social e criminal.

O terceiro nível é no campo religioso e aqui está a base, o alicerce do meu trabalho: demonstrar que uma leitura literalista, ainda que seletiva, das Escrituras, não é possível, tampouco desejável. Até o século XIX, quando nasce então esse câncer chamado fundamentalismo, jamais se interpretou o texto bíblico ao “pé da letra”.

SC – Uma passagem bíblica isolada já é suficiente para os fundamentalistas basearem suas crenças, como aquelas que supostamente condenam a homossexualidade. Na sua opinião este tipo de pratica é um erro. Por quê? Que tipo de perigos pode haver com uma interpretação literal de trechos bíblicos?

Existe uma regra de ouro, reconhecida até mesmo pelos fundamentalistas, embora eles a pratiquem seletivamente. A regra é clara: “texto fora de contexto é pretexto”. O erro dos fundamentalistas é não aplicá-la à toda Escritura, mas somente nos textos que lhes interessam, geralmente para afirmarem positivamente suas doutrinas. Eles vão ao texto à priori, ou seja, eles forçam o texto para enquadrá-lo nas suas interpretações. A regra de ouro, se aplicada nos textos que supostamente condenam a homossxualidade, por exemplo, demonstrará que a Escritura não condena a homossexualidade como nós a entendemos hoje.

Livro do Rev. Márcio Retamero

O perigo de interpretarmos a Bíblia ao pé da letra é imenso. A Bíblia mandar matar! A Bíblia pode ser usada, como foi, para legitimar a escravidão humana. A Bíblia é misógina… Assim como os fundamentalistas islâmicos encontram numa interpretação errônea e literal do Alcorão motivos para explodir bombas mundo a fora, os cristãos fundamentalistas encontram no texto bíblico interpretado literalmente, motivos para assassinarem todos os LGBTs: “são passíveis de morte ps que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem” (Romanos 1.32).

SC - Pode-se dizer, então, que as interpretações bíblicas que se têm hoje acerca da homossexualidade são arbitrárias?

Arbitrárias, caducas, sem sentido, espúrias, malvadas, maléficas, perniciosas, sem razão de ser!

SC – Em sua obra você diz que, materialmente falando, a Bíblia é literatura e suas pesquisas esmiuçam a maneira como ela foi “montada” e reeditada pelos homens ao longo da Historia. É possível analisar as escrituras de uma forma crítica sem com isso abalar o seu caráter sagrado?

Sim, é possível. Uma coisa é o estudo crítico, outra é a hermenêutica, a interpretação no objetivo de retirar destes textos um alimento para a alma. Contudo a hermenêutica não pode ser alienada do estudo crítico. Como retirar alimento e sentido espiritual para os nossos dias, das Escrituras? Lendo-a existencialmente. É somente numa leitura existencialista que se demonstra o caráter “sagrado” das Escrituras, quando elas falam a mim: homem gay, nascido no século XX, vivendo no século XXI. O “sagrado” da Bíblia não está em sua materialidade, nisto, a Bíblia é somente texto literário.

SC – Baseado em sua vivência como Pastor da Comunidade Betel, quais são os maiores transtornos que os gays cristãos excluídos das igrejas costumam apresentar?

Muitos! Baixa auto-estima ou nenhuma. Pulsão de suicídio muito forte. Infelicidade do ser o que se é. Passividade diante da existência. Desestímulo para viver e realizar. Medo. Rejeição e auto-rejeição. As vítimas de abuso bíblico sofrem muito e, infelizmente, muitos sucumbem.

SC – De que forma os gays cristãos podem se libertar das amarras do fundamentalismo para ficarem em paz consigo mesmo e com sua religião?

Buscar e se integrar numa igreja inclusiva. Estudar profundamente as Escrituras. Se reconciliar com o Sagrado a partir das suas situações existenciais. Buscar auxílio espiritual no aconselhamento pastoral com pastores e pastoras inclusivos. Nos casos mais sérios, buscar ajuda dos profissionais da psicologia e psiquiatria. O mais importante é entender que nada de errado existe na homossexualidade, tudo o que Deus faz é perfeito e bom.

SC - Você acredita que as igrejas cristãs inclusivas podem ajudar a causa LGBT? De que forma?

Acredito e para isto, olho para a história. A igreja inclusiva é um bebê no Brasil, mas ela já é uma adulta de mais de quarenta anos. Ela nasce na década de 60 do século passado em Los Angeles, Califórnia/EUA e, desde sua organização, ela sistematicamente reinvindica junto ao Estado a proteção legal e a igualdade de direitos numa democracia. Isso ajudou muito na construção e implementação de políticas públicas na década de 80 nos EUA com a epidemia da AIDS. No Canadá, além da questão AIDS, a igreja inclusiva foi a pioneira e a lutadora mais feroz em relação a legalização da união homoafetiva, assim como na Europa. Na Europa Oriental e na África, a mão da igreja inclusiva está por trás das organizações das paradas do orgulho e nas marchas contra a intolerância e pelos direitos humanos.

Na Romênia, nossa pastora é presa todos os anos – neste ano ela venceu – por tentar realizar a parada do orgulho. Na Ásia, acontece neste momento, bem como na Jamaica, uma revolução social, a partir do trabalho das igrejas inclusivas, notadamente a Igreja da Comunidade Metropolitana (Metropolitan Community Church), denominação à qual está ligada a Comunidade Betel, a maior do mundo, presente em mais de trinta nações da terra. Na Jamaica, já citada, nós perdemos 3 pastores assassinados por homofóbicos e um líder de música sacra. No velório deste maestro, nossa igreja foi cercada por fundamentalistas homofóbicos armados de paus e pedras, que bateram nos participantes do velório e arrasaram a igreja, mas nós ainda estamos lá, não desistimos!

Nos EUA, a Santa Ceia de uma de nossas igrejas foi envenenada, levando centenas ao hospital. Atearam fogo na igreja mãe em Los Angeles na década de 70. A resistência é sistemática e feroz, matam os corpos, mas jamais a causa. A igreja inclusiva, na minha opinião, é a linha de frente da causa LGBT, pois nossos inimigos sempre se escoram na Escritura, em Deus, no “cristianismo” para nos calar e nos matar existencialmente.

SC -Afinal, a Bíblia pode ou não incluir os gays?

A Bíblia não somente inclui os LGBTs na história da salvação, bem como narra nossa história ao nos revelar relações homoafetivas (Davi e Jônatas, Rute e Noemi), além de revelar promessas espirituais (Isaías 56, dentre outras passagens). A Bíblia nos revela que Jesus Cristo, o Deus Encarnado para os cristãos e cristãs, jamais condenou a homossexualidade, antes, a entendia, como é demonstrado numa passagem memorável de São Mateus, quando o Mestre da Galiléia diz que nem todos são aptos para o casamento (heteronormativo), mas que existem os eunucos. No livro de Atos dos Apóstolos, a Bíblia conta como aconteceu a primeira inclusão de um homossexual (o eunuco etíope, mordomo da rainha de Candace) na comunidade de fé cristã pelo batismo. A Bíblia também nos pertence.

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Entrevista retirada do site Subvertendo convenções, de Kiko Riaze, gostou visite o site