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Entrevista com Sérgio Viúla
Neste mês de Agosto, a Comunidade Betel do Rio de Janeiro, igreja onde sou pastor, completou três anos de atividades públicas. Nesses três anos, conquistamos e fomos conquistados por muitos amigos muito especiais, dentre esses, Sérgio Viúla, que esteve entre nós no último domingo para falar sobre processo de libertação LGBT, “sair do armário” como dizemos popularmente.
Sérgio tem uma rica experiência de vida e no que diz respeito à religião e homossexualidade, ele é um mestre! Estudou Teologia, foi pastor batista, missionário e professor de seminário. Nesta fase, casou, é pai de dois filhos e fundou o Movimento pela Sexualidade Sadia (MOSES) junto com João Santolin. Trabalhando no MOSES, aos poucos foi percebendo o quão falacioso é a tentativa de ser o que não é e então, rompeu com tudo! Separou da esposa, saiu da igreja, deixou de ser pastor e assumiu sua homossexualidade. Concedeu uma bombástica entrevista à revista Época, revelando-se e também revelando a falácia do MOSES. Tornou-se ateu. Hoje é professor de inglês, estudante de Filosofia na UERJ, é dono do blog “Fora do Armário” e vive feliz ao lado do seu amor, Emanuel.
Para muitos cristãos fundamentalistas, Sérgio é um desertor; para mim, Sérgio é um profeta. Na entrevista que segue, Sérgio compartilha conosco sua experiência de vida e visão de mundo.
Marcio - Sérgio, como aconteceu sua adesão a fé cristã e qual foi o ápice dessa trajetória?
Sérgio - Eu me converti na Igreja Missionária Evangélica Maranata durante um culto realizado no auditório da A.B.I. (Associação Brasileira de Imprensa. Depois de muito insistirem, dois amigos meus finalmente conseguiram me convencer a ir ao culto. Fui duas vezes, e na segunda vez entreguei-me publicamente a Cristo. Tinha apenas 16 anos de idade, mas levei tão a serio a decisão que rapidamente subi na hierarquia da igreja. Fui professor de EBD, líder de mocidade, missionário com a Operação Mobilização. Mais tarde, saí da Maranata e fui para outra igreja pentecostal, onde continuei trabalhando arduamente no ministério. Quando percebi que esta igreja desviara-se do que considerava bíblico, migrei para a Igreja Batista (CBB). Já havia me formado no Seminário Teológico Betel, no qual também lecionei. Fui ordenado pastor. Trabalhava como editor do jornal Desafio das Seitas, que era administrado pelo Centro de Pesquisas Religiosas (CPR). Fiz duas pós-graduações em missiologia no Seminário Teológico Betel em parceria com o Fuller Theological Seminary dos Estados Unidos. Fiz um Seminário de Liderança Avançada pelo Instituto Haggai em Cingapura. Este foi meu último grande feito como crente. Nenhum destes ministérios, porém, foi mais INÚTIL para o bem da humanidade do que o Moses (Movimento pela Sexualidade Sadia), do qual eu fui um dos fundadores em 1997.
Marcio - Você foi um dos fundadores do MOSES [Movimento pela Sexualidade Sadia] que prega a conversão de homossexuais em heterossexuais. Como foi o processo até você entender que essa conversão é uma falácia?
Sérgio - Diversas coisas aconteceram para que eu pudesse despertar do sono dogmático em que me encontrava. Primeiro, fui percebendo eu mesmo - a despeito de toda fé e dedicação - não experimentara nenhuma mudança real. Depois, passei a prestar atenção à vida das inúmeras pessoas que nos procuravam e passavam pelos aconselhamentos, retiros, orações, etc. Nenhuma delas havia mudado de fato. Só sabiam sofrer com a tensão entre o que diziam os fundamentalistas cristãos e o que desejavam de coração. Várias pessoas se envolveram com pessoas que estavam no Moses. Várias vezes presenciei confrontações entre a liderança do Moses e gente que havia transado com amigos conhecidos no ministério. Além daqueles que transavam fora e traziam suas histórias aos prantos para as sessões de aconselhamento.
Marcio - O MOSES hoje me parece em declínio, não ouvimos mais falar de ações desta instituição. Você atribui isso a que? Muitos pensam que sua entrevista à revista Época, naquele tempo, foi um duro golpe na instituição.
Sérgio - Certamente que a minha denúncia foi um divisor de águas. Não é todo dia que um homem com 18 anos de crença e ministério, fundador de um grupo de "reversão", pastor de uma igreja respeitada, com vasta experiência ministerial, vem a público e denuncia as falácias de uma organização e crença deste tipo. Os próprios crentes passaram a desconfiar daquela organização. Não só isso, mas entre a própria liderança já havia aqueles que se perguntavam por que as pessoas não mudavam realmente. Devem ter visto em tudo isso um ponto final para a pergunta. Porém, sempre há os saudosistas e não me admiraria se alguém retomasse o nome desta organização e sua proposta.
Marcio - Sair do Armário é um duro processo! O título do seu blog é “Fora do Armário” diz muito sobre a sua atual condição existencial. Como foi esse processo de sair do armário para você e para a sua família?
Sérgio - Foi duro. Fui perseguido por meus pais, e irmãs, minha ex-mulher, incompreendido por "amigos", etc. Meus filhos foram surpreendentemente maduros, apesar de tão novos. Nunca deixaram de me amar e querer estar comigo. Deixei minha casa e tudo o que havia dentro dela nas mãos da minha ex-mulher por causa dos meus filhos. Comecei do tudo do zero de novo. Arrumei novo emprego, porque a escola na qual lecionava estava nas mãos de gente da igreja batista, e a convivência ficou insustentável. Nunca me arrependi de ter saído do armário. Fui em frente. Batalhei. E por isso progredi para um emprego melhor, consegui minha casa própria, conheci Emanuel (com quem estou casado hoje), passei a morar perto dos meus filhos (que estão com minha mãe atualmente), meus pais passaram a aceitar a realidade e se dão bem comigo e com Emanuel atualmente. Estou colhendo a tranqüilidade que plantei no meio da maior tempestade que enfrentei na vida.Valeu a pena!
Marcio - Pesando tudo isso, apesar das lutas internas e externas, valeu à pena? O que você diria para alguém que deseja muito sair do armário, mas ainda não encontrou forças para isso?
Sérgio - Sair do armário vale a pena! É muito melhor viver 100% na autenticidade com relação à sua homoafetividade do que "de dia ser Maria e de noite ser João", como cantava o Chacrinha. A pessoa nem é realmente heterossexual e nem vive plenamente sua homossexualidade. Quando a gente é resolvido e assumido, a chantagem, a ameaça, as acusações indiretas e coisas semelhantes perdem totalmente o efeito. Você assume o controle de sua própria vida e desejo. Se tiver que mudar tudo para viver plenamente, mude! Eu mudei de emprego, de endereço, de amigos, mas ganhei qualidade de vida, tranqüilidade e as condições necessárias para me realizar plenamente.
Marcio - O ateísmo que hoje você professa é fruto de um processo de entendimento acerca da religião, sua natureza e papel social ou reação emocional, portanto, reativa, a tudo o que você viveu na igreja evangélica? Como você de cristão passou a ateu?
Sérgio - Tudo isso junto. Compreendi que - essencialmente falando - o cristianismo não está em posição melhor do que qualquer outra religião atual ou antiga. A religião egípcia, grega, cananita pode ser encarada até como superior em alguns aspectos. Qual é o fundamento seguro, ou seja, evidente e infalível que me garante que deus existe, ou que a bíblia é uma revelação divina, ou que o céu existe, ou que o inferno seja real? Como saber seguramente que Jesus e não Maomé ou Buda é o caminho, a verdade e a vida? Quem me garante que Jesus - se existiu de fato - não foi meramente um judeu, inconformado e ressentido com os dominadores da época, que acabou sendo mitificado por seus seguidores como ainda hoje acontece com aqueles que inspiram os desesperados. O próprio Inri Cristo que vive no sul do Brasil e alega ser a reencarnação de Cristo tem seus seguidores. Pode parecer uma comparação ridícula, mas só soa ridícula, porque a carga emocional que cerca a figura de Jesus hoje é muito forte. Imagine como seria visto o Inri Cristo daqui a algumas décadas ou séculos se pudesse contar com todos as forças políticas, sociais e econômicas que levaram Jesus a se tornar o messias de milhões pessoas do lado de cá do mundo. Haveria quem acendesse fogueiras em nome dele!
Emocionalmente falando, entender que não preciso dar contas a deus nenhum me liberou para ser eu mesmo e fazer de mim o melhor que eu possa. Se por um lado eu não tenho um fustigador celestial, por outro não tenho um onipotente provedor. Isso me libera para ser e fazer muito mais da vida! Deus não existe para cobrar, mas também não existe para dar nada. Não existe medo e nem esperança inútil. Restam a determinação em fazer da vida uma obra de arte e a ação prática na realização desta empreitada!
Marcio - Como você analisa este fenômeno social das igrejas inclusivas?
Sérgio - Acho excelente que os homossexuais crentes tenham onde se reunir e cultuar. Não sou contra o culto. Apenas não cultuo. Entretanto, gosto mesmo é da postura de igrejas como a Comunidade Betel em Botafogo. É uma comunidade engajada na luta pelos direitos dos homossexuais, que gosta de pensar e não tem medo de idéias confrontadoras. Fico muito preocupado com as "igrejas-clone" de igrejas homofóbicas que apenas encaram a homossexualidade de uma forma positiva. Gay-friendly não significa sempre certo. Uma igreja simpatizante dos homossexuais que anestesia seus membros com doutrinas e práticas que os isolem da realidade social e política que os circunda não é diferente de qualquer outra, no que diz respeito à luta pela emancipação plena do cidadão homossexual.
Marcio - Algumas igrejas históricas como Anglicana, Luterana (nos EUA) e Presbiteriana (na Escócia) estão reconhecendo a homossexualidade como algo natural. Tais igrejas já ordenam pastores e pastoras homossexuais e celebram os ritos de casamento. No seu entendimento enquanto teólogo, o que está acontecendo nestas igrejas é fruto do trabalho cada vez mais relevante da militância LGBT ou os teólogos resolveram admitir publicamente que a Bíblia não condena a homossexualidade?
Sérgio - A militância tem grande mérito nisso. As igrejas chamadas inclusivas estão assustando por seu crescimento - o que significa que muitas igrejas da ala tradicional estão perdendo membros. Eles são obrigados a parar e refletir sobre isso. Os teólogos muitas vezes pensam coisas diferentes daquelas que a maioria dos pregadores dizem em seus púlpitos. Saber que eles estão revendo seus conceitos é uma boa nova. Já houve tempo em que negro só se reunia em igreja de negro nos EUA. Isso é segregação. Quero ver o dia em que gays não tenham que freqüentar e ministrar somente em igreja de gays. No dia que isso acontecer, podemos dizer que a segregação por orientação e identidade sexual é coisa do passado. Espero viver para ver.
Marcio - Religião e Política tem andado de mãos dadas no nosso país. O Brasil assinou um acordo bilateral com o Vaticano nos últimos meses e só cresce o número de políticos evangélicos. Nossos espaços públicos são cheios de imagens e ícones do cristianismo. O Estado Laico ainda é um sonho?
Sérgio - O Brasil é uma piada em diversos sentidos. Somos constitucionalmente laicos, mas na prática o sacerdócio dá muito palpite na vida pública. Qualquer pessoa pode professar a religião que quiser. Ateus também deveriam ser mais claros em relação ao seu ateísmo. Existe um armário para os ateus também. Ateus precisam assumir tranqüilamente suas idéias. Isso faz diferença. Agora ninguém pode usar cargo político para favorecer grupos religiosos ou agremiações de qualquer espécie. Foi isso o que Édino Fonseca tentou fazer em 2004 e a Revista Época denunciou através da minha entrevista. Isso tem que acabar. Isso também é uma forma de corrupção. O Estado Secular de Direito é melhor, porque garante mais direitos para todos, inclusive para os religiosos. O dia em que uma religião tomar o poder, todas as outras estão perdidas. Vejam os exemplos históricos da Europa, do Oriente Médio e do Sul da Ásia.
Marcio - As eleições estão chegando e, pelo atual desenho eleitoral, teremos duas mulheres que, embora façam parte da esquerda, são evangélicas e concorrerão para importantes cargos no Executivo. Falo da senadora Marina Silva e da atual vereadora Heloísa Helena. Você votaria em evangélicos ainda que de esquerda?
Sérgio - Dificilmente. A maioria dos crentes faria qualquer coisa para preservar aquilo em que creem. Isso é perigoso. Por outro lado, o fato de alguém ser ateu não garante que será bom governante. É preciso ver as propostas e o passado político de cada candidato(a). O próprio Barack Obama que tantas expectativas alimentou vem sendo alvo da crítica do movimento homossexual americano por não estar realmente fazendo avançar a luta pela conquista de direitos civis em território americano. É muito difícil acreditar nos políticos. Os homossexuais já foram massa de manobra nas mãos dessa gente por tantas vezes que já não dá para apostar em nenhum deles.
Marcio - Estamos chegando ao fim de dois mandatos do presidente Lula e até o presente momento nenhuma lei que contemple a população LGBT foi aprovada no Congresso Nacional, ainda que a base do governo do “Brasil sem Homofobia” seja majoritária. Muitas palavras no papel e pouca ação efetiva? Analise.
Sérgio - É exatamente o que acabei de dizer. Se o Lula que é o presidente com maior aprovação popular e com aliados por todos os lados não fez nada de concreto no que diz respeito a mudar essa legislação heterossexista que está aí, como podemos acreditar que uma candidata do partido dele fará? Ele nem tem a desculpa de estar esperando o segundo mandato, como parece ser o caso de Obama. Ele já está apagando as luzes de seu gabinete, mas não acendeu nenhuma no fim do túnel dessa história de apatia política para com a comunidade gay brasileira.
Marcio - Recentemente, uma travesti foi surrada publicamente por policiais na Parada Gay de Penedo, nas Alagoas. Em São Paulo , Marcelo Campos foi assassinado e uma bomba de fabricação caseira foi atirada contra gays. Somente no ano de 2009, segundo as estatísticas do Prof. Luiz Mott, já contamos com 108 assassinatos de homossexuais. No seu entendimento, a homofobia tem crescido ou tem mostrado a sua cara na medida em que os LGBTs saem da invisibilidade?
Sérgio - Está ficando mais evidente, mas sempre existiu. Todavia, não podemos recuar. O nazismo lançou mais de 300 mil homossexuais à morte em seus campos de concentração, além dos que saíram de lá para morrer aqui fora em conseqüência dos mau tratos. Não havia movimento gay na Alemanha para defendê-los até então. Hoje temos o privilégio de estar organizados e podermos falar e agir contra a violência homofóbica. Não podemos recuar. Devemos ser apenas mais cautelosos nessas concentrações, porque nem tudo é festa. Aliás, essa é uma luta política. Muita gente gay não tem noção disso. Quando falamos em direitos, falamos de vida, liberdade, segurança. Ser visível é o primeiro passo, mas não é o único. Talvez os homossexuais precisem fazer mais pressão. Mas como é que homossexuais enrustidos podem colaborar com isso? É preciso ser assumido para poder colocar a boca no trombone sem medo de ser visto por fulano ou sicrano. Gente enrustida não pode fazer isso, a menos que queira sair do armário em grande estilo. Por isso, sair do armário é muito mais do que um luxo reservado só para alguns. É dever de todos os que desejam uma sociedade melhor assumir seu desejo, orientação e identidade.
Marcio - Como combater a homofobia internalizada e a social?
Sérgio - A homofobia internalizada tem que passar por uma transvaloração dos valores. O indivíduo tem que repensar seus pressupostos "morais", religiosos, sociais. A homofobia social deve ser combatida com campanhas educativas e com legislação rigorosa contra os agressores, seja verbalmente ou fisicamente.
Marcio - A verdade realmente liberta?
Sérgio - A verdade liberta! Mas só deve ser entendido por verdade aquilo que possa ser evidentemente demonstrado e que se aplique a todas as situações daquele mesmo tipo em qualquer tempo e lugar. Por exemplo, não é verdade que a homossexualidade seja pecado, apesar de muita gente achar que isso seja verdade. Para aqueles que pensam ser verdade que a homossexualidade é pecado, a "verdade" é escravizante, porque não é VERDADE, de fato. Neste sentido, a VERDADE liberta. Quando o indivíduo perceber que a homossexualidade é universal, apresentando-se em mais de 300 espécies animais, perpassando toda a história da humanidade, sendo característica de gente que produziu muito mais do que a média no campo das artes, da política, da filosofia, da ciência, essa pessoa vai ser liberta da ignorância, do dogma escravizante. Neste sentido, verdade equivale a conhecimento verdadeiro. E o conhecimento (não a fé) realmente liberta! Transforma! Fecunda a vida! Vale a pena reavaliar o que se pensa e ousar pensar diferente e agir diferente quando se percebe que tudo não passava de um profundo e doloroso equívoco.
(Entrevista fornecida ao site a Capa)
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Márcio Retamero: Em quem votar?
Por Márcio Retamero* 21/10/2010 - 17:13

Desde que comecei a escrever esta coluna sobre religião aqui no A Capa, tenho alertado a respeito do fundamentalismo religioso no Brasil, seu conluio com políticos de todas as vertentes, seu assalto ao Estado Laico, seu projeto de poder que avança galopantemente, seu enorme capital político, econômico e simbólico e o crescimento, em progressão geométrica, no Brasil.
Em textos aqui publicados o leitor pode ler sobre o processo histórico deste movimento teocrático, portanto, reacionário e suas implicações sociais e políticas para o Brasil.
Escrevi sobre Teologia e Política e também sobre Teologia Política, um campo de estudo da Teologia e a importância que esta área do conhecimento toma, dia a dia, entre nós, porque nos revela o que é importante além dos fatos que conhecemos, analisando o fenômeno religioso e político mais profundamente.
Desde o primeiro turno venho alertando sobre a aliança nefasta, adoecida e pervertida da ala fundamentalista com o poder político institucional no nosso país e desconstruí os equivocados argumentos dos três candidatos que ocupavam a liderança nas pesquisas de intenções de voto (Dilma, José Serra e Marina), a confusão que eles faziam com os termos "casamento de homossexuais" e "união civil de homossexuais", demonstrando o quão falacioso era essa confusão com o objetivo claro de agradar ambos os lados dessa luta: os LGBT e os evangélicos fundamentalistas.
Estamos agora no segundo turno das eleições presidenciais e temos assistido, perplexos e boquiabertos, o jogo (baixo) político completamente cooptado e instrumentalizado pelo fundamentalismo religioso que tem ditado a agenda de ambos os candidatos: "Deus", ou melhor, "deus", entrou de vez na política brasileira, para a desgraça de muitos e felicidade de poucos.
A questão do aborto e do "casamento" ou "união civil" LGBT ocupou ambos os candidatos, que tomaram posição em relação aos assuntos ditados pela agenda fundamentalista. Jornais, revistas, sites, rádios e canais de TV deram ampla cobertura sobre o debate que tomou conta da nação.
Dilma e José Serra tiveram que compor alianças com os caciques fundamentalistas religiosos. Ela com o Pastor Manoel Ferreira, Magno Malta, Marcelo Crivella e outros. Ele com o maior algoz dos LGBT no Brasil, o pastor Silas Malafaia que tem aparecido em sua propaganda eleitoral gratuita, e até o "Pastor da Toalhinha", Waldomiro Santiago, tem feito aparições na propaganda tucana, dizendo: "Se você crê em mim, vote Serra!"
A campanha tucana vem batendo forte na questão do aborto e nesse embate tem dado golpes bem baixos em Dilma Rousseff, usando de todo tipo de argumento perverso e pervertido para atrapalhar sua candidatura.
A palavra "deus" ficou corriqueira nos discursos e declarações de ambos os candidatos: "deus me abençoou", "orei a deus", "falei com deus", "agradeci a deus"... Fato é que ambos os candidatos se curvaram ao fundamentalismo religioso e com ele fizeram negociatas e pactos. Dilma chegou a escrever a "Carta de Dilma" aos evangélicos, prometendo coisas como "Eleita presidente da República, não tomarei a iniciativa de propor alterações de pontos que tratem da legislação do aborto e de outros temas concernentes à família e à livre expressão de qualquer religião no País", e, "Com relação ao PLC 122, caso aprovado no Senado, onde tramita atualmente, será sancionado em meu futuro governo nos artigos que não violem a liberdade de crença, culto e expressão e demais garantias constitucionais individuais existentes no Brasil."
José Serra tem se manifestado contra o aborto e declarou que "casamento entre homossexuais é questão das igrejas" e embora nada tenha dito sobre a aliança que compôs com Silas Malafaia e Waldomiro Santiago, sabemos bem que nenhum dos dois joga para perder e que ambos têm sonhos faraônicos e sede de poder. Quem sabe um dia eles se tornem o Roberto Marinho da comunicação evangélica fundamentalista com a ajudinha do Planalto?
Eu sei que fundamentalistas religiosos negociam pesado e a troca de favores jamais sai de graça. Eles desconhecem altruísmo e só praticam assistencialismo social. Não tenho dúvidas que ambos os candidatos prometeram bem mais do que declaram aos caciques fundamentalistas que os apoiam neste momento para que haja vitória no segundo turno, já que o apoio deles pode resolver a disputa.
Em relação à questão LGBT, ambos os candidatos se dizem favoráveis a "união civil" LGBT. A Carta que a ABGLT enviou a ambos e que teve ampla divulgação na mídia resolveu, creio eu, essa questão de casamento e união civil. Desde então, sabemos de fonte oficial que o Movimento Homossexual Brasileiro, ao contrário da Argentina, Espanha e Portugal, não pleiteia o casamento civil, como já acontece nesses países, mas tão somente a "união estável" ou "civil", o que para mim é pouco, muito pouco, além de manter LGBT abaixo dos heterossexuais neste direito que deveria ser para todos.
Silas Malafaia em recente vídeo divulgado, no qual ele inicia uma guerra com Edir Macedo por este ter insinuado que ele certamente levará vantagem caso Serra vença, além de tê-lo chamado de falso profeta, declara que OS EVANGÉLICOS SÃO CONTRA AS DUAS COISAS: UNIÃO CIVIL E CASAMENTO.
Fica a dica para a ABGLT: se a luta acontecerá de qualquer maneira, por que, então, não pleiteamos logo o casamento civil LGBT? Por que insistirmos na "união civil", se isto de fato não nos concede direitos iguais, nos mantendo assim, na segunda classe da cidadania brasileira? Em relação ao PLC 122 Dilma declarou em sua carta que vetará os artigos que ferem a "liberdade de crença, culto e expressão". Isso significa: os pastores fiquem calmos, vocês continuarão com a liberdade de chamarem LGBT de drogados, disseminadores de doenças, doentes, comparando-os ao que existe de mais baixo na humanidade como fazem até o presente momento, disseminando a homofobia que mata e faz matar, colaborando para o aumento do número de assassinatos de LGBT, além do número de evasão escolar e dos filhos e filhas expulsos de seus lares por serem LGBT.
José Serra e seu vice, Índio da Costa, já declararam que são contra o PLC 122 no que ele "fere" o sentimento religioso. Eu tenho o direito de duvidar que José Serra se eleito sancione algum artigo do mesmo, uma vez que Silas Malafaia, seu aliado entre os evangélicos fundamentalistas, é contra o PLC 122 por inteiro, bem como a união civil entre iguais.
A Carta que a ABGLT publicou aos dois candidatos relembra a ambos seus bons trabalhos e contribuições à causa LGBT no Brasil, embora, num determinado momento, resvala para um apoio claro e aberto à candidata Dilma quando declara que ela faz parte do governo que "mais fez" pelos LGBT no Brasil como o Programa Brasil Sem Homofobia, além das implementações de políticas públicas nas mais diversas áreas tendo como alvo este público, como o reconhecimento do nome social das travestis e transexuais, a operação de readequação de sexo pelo SUS, além de ter convocado a primeira conferência LGBT do mundo para o debate de políticas públicas envolvendo essa parcela da sociedade.
Quem quiser saber o que José Serra já fez basta verificar sua atuação no Ministério da Saúde e sua política de Aids ou verificar no estado de São Paulo seu trabalho junto a esta população. As Coordenadorias da Diversidade Sexual (CADS), por exemplo, é um dos frutos deste trabalho.
O que o governo Lula e o que o então ministro da saúde e governador José Serra já fizeram pela população LGBT é história e ninguém tira isso deles, restando apenas o reconhecimento de todos e todas pelo trabalho realizado.
Resta saber é o que Dilma e José Serra fará se eleitos presidentes do Brasil, porque ambos correram o quanto puderam do debate em torno das questões LGBT, justamente porque este segundo turno está polarizado nas questões que os fundamentalistas introduziram com sucesso, contribuindo para a campanha presidencial mais obscurantista que o nosso país já teve!
A dúvida que assola muitos e muitas é: em quem votar? Diante das alianças nefastas e dos pactos de José Serra e Dilma Rousseff com os fundamentalistas religiosos, o que restou para nós, LGBT? Uma coisa é inegável: ambos são, hoje, reféns dos fundamentalistas religiosos e não poderão, uma vez presidente da República, "esquecer" as negociatas que fizeram, pois quatro anos passam voando e novas eleições serão convocadas e o que tiver apoio evangélico fundamentalista daqui por diante, vencerá o pleito.
Eu que não faço alianças com fundamentalistas religiosos e os tenho como antípodas, sabendo que eles jamais abrirão mão de suas convicções medievais em prol da agenda política e social LGBT; sabendo que eles impedirão como têm impedido até o presente momento o avanço do processo de concessão de cidadania plena aos LGBT; declaro: votarei nulo e farei oposição a ambos, porque não como este pão podre que nos tem sido servido como comunhão. Rogo: Pai, afasta de nós este cálice de vinho tinto de sangue!
* Márcio Retamero, 36 anos, é teólogo e historiador, mestre em História Moderna pela UFF/Niterói. É pastor da Comunidade Betel/ICM RJ e da Igreja Presbiteriana da Praia de Botafogo. É autor de "O Banquete dos Excluídos" e "Pode a Bíblia Incluir?", ambos publicados pela Editora Metanoia. E-mail: marcio.retamero@gmail.com.
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A Cidade do México aprovou uma lei que garante igualdades de direitos dos seus cidadãos homossexuais aos heterossexuais, inclusive o direito à adoção. A Igreja Católica do México, através de seus representantes, se manifestou contrária à lei, alegando que homossexuais querem adotar crianças para abusar sexualmente delas, usando-as também para pornografia infantil e prostituição. Seria cômico, se não fosse trágico!
Eu recomendaria aos representantes da Igreja Católica do México, que lavassem a boca ou a calasse ao falar de homossexuais dessa maneira! Recomendaria, também, a leitura do livro "Fallen Order", de Karen Liebreich, doutora em História pela Universidade de Cambridge. O estudo é uma longa pesquisa historiográfica sobre os abusos pedófilos cometidos pelo clero europeu. Remontando ao século XI, Karen nos revela, entre outras coisas, que no ano de 1050, Pedro Damian, hoje santo, escrevera um relatório ao Papa Leão IX sobre os abusos sexuais infantis, acusando os superiores hierárquicos dos padres abusadores de crianças de conivência e parceria na culpa. Resultado: o Papa Leão IX abafou o relatório de São Pedro Damian.
"Abafar o caso" quando se trata deles, para depois, dedos em riste, acusarem homossexuais de perpetradores de pedofilia é, desde o século XI, o que fazem alguns prelados romanos.
Karen também nos relata outro caso: no século XVII, o abuso sexual infantil era cotidianamente praticado por sacerdotes da "Ordem Religiosa das Escolas Pias", também conhecida como "Padres Escolápios", dedicada à educação de crianças de pais pobres. José de Calazans, o fundador da Ordem e hoje santo, sabia dos abusos sexuais contra as crianças e tentou "abafar o caso". O Papa Inocêncio X nomeou Stefano Cherubini, inveterado pedófilo, para dirigir uma escola da Ordem em Nápoles. Quando soube que estava ameaçado de demissão por conta dos abusos, o pedófilo padre Cherubini ameaçou destruir a Ordem contando tudo o que sabia, ou seja, ele não era o único. O santo fundador dos Padres Escolápios, José Calazans, escreveu a um amigo: "acoberte esta grande vergonha a fim de que não chegue ao conhecimento dos nossos superiores".
João Paulo II, em seu longo pontificado, enfrentou sua maior crise no caso dos escândalos dos abusos sexuais dos padres pedófilos americanos e europeus, tentando "abafar o caso" até onde conseguiu. Não demorou muito para que a imprensa do mundo inteiro relatasse o que acontecia dentro das paredes de algumas, na verdade, muitas, paróquias católicas.
O escândalo tomou proporções agudas em fevereiro de 2004, quando o Colégio de Justiça Criminal da Universidade John Jay, de Nova Iorque, publicou um relatório dando conta ao mundo de que 4% do clero americano, na segunda metade do século 20, tinham sido acusados de abuso sexual com menores. Isso equivale a 4 mil e quatrocentos padres que abusaram de cerca de 11 mil menores de idade nos Estados Unidos, metade deles sob o pontificado de João Paulo II.
Dois anos antes dessa bomba cair na Cidade do Vaticano, o mundo soube o que acontecia na Arquidiocese de Boston: os padres John Geoghan, Shanley e Birmingham estavam sendo expostos na mídia como pedófilos. O primeiro foi condenado pela Justiça do Estado de Boston por ter abusado de mais de 130 menores. Nessa época, o então Cardeal Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, encontrava-se semanalmente com João Paulo II. Nesses encontros, ele assegurava ao então Papa que menos de 1% do clero católico nos Estados Unidos eram "alvos" de denúncias, o que o relatório da Universidade John Jay mostrou ser uma mentira.
Era responsável pela Arquidiocese de Boston nesta época, o Cardeal Bernard Law, um "abafador de caso" de primeira! Law ao invés de agir corretamente no caso dos padres pedófilos, entregando-os à polícia, denunciando-os, simplesmente transferia-os de paróquias e eles ficavam assim, livres, para cometerem mais abusos contra menores. Em 2002, pressionado pela imprensa à renúncia, Law balançou... Mas João Paulo II não permitiu que ele renunciasse. Isso só veio acontecer quando a situação era insustentável, no ano de 2003. Mas em 2004, João Paulo II o presenteou como arcipreste da Basílica de Santa Maria Maior, em Roma, um alto posto na Igreja. Além disso, e até o dia de hoje, o Cardeal Law, cúmplice de muitos abusos sexuais contra menores, é membro de sete congregações e dois conselhos da Cúria Romana.
O Boston Globe, em artigo contundente na época, perguntou: "Tinha o Vaticano que escolher a mesma semana para dar posse numa Basílica romana ao principal arquiteto do desastre que as atingira (as paróquias da Arquidiocese, 357 delas fechadas pelo novo Arcebispo de Boston)? Deixemos de lado a fundamental depravação de recompensar com uma sinecura de luxo na Cidade Eterna um conivente no estupro em série de crianças. Que sinal mais claro poderia a Igreja Católica Romana enviar aos seus fiéis de que ela administra a justiça em dois níveis, um para os leigos e um outro para os clérigos?"
Basta uma rápida pesquisa no Google para saber: cerca de dois bilhões de dólares é o montante pago pela Igreja Católica Romana às vítimas infantis de abusos sexuais. Somente em 2007, a Arquidiocese de Los Angeles pagou a 508 vítimas o equivalente a 1,2 bilhão de reais (660 milhões de dólares). A Diocese de Detroit foi à falência e no último mês de dezembro, o mundo soube que durante 40 longos anos, a Igreja acobertou abusos sexuais infantis cometidos por padres na católica Irlanda. O fato ficou conhecido através de um relatório de mais de 700 páginas, cobrindo somente a Arquidiocese de Dublin, resultado de uma ampla pesquisa comandada pela juíza, Dra. Yvonne Murphy. No dia de Natal, 25 de dezembro de 2009, dois bispos irlandeses, Eamonn Walsh e Raymond Field, renunciaram devido ao escândalo.
Eu recomendaria aos representantes da Igreja Católica do México, que lavassem a boca ou a calasse ao falar de homossexuais dessa maneira! Recomendaria, também, a leitura do livro "Fallen Order", de Karen Liebreich, doutora em História pela Universidade de Cambridge. O estudo é uma longa pesquisa historiográfica sobre os abusos pedófilos cometidos pelo clero europeu. Remontando ao século XI, Karen nos revela, entre outras coisas, que no ano de 1050, Pedro Damian, hoje santo, escrevera um relatório ao Papa Leão IX sobre os abusos sexuais infantis, acusando os superiores hierárquicos dos padres abusadores de crianças de conivência e parceria na culpa. Resultado: o Papa Leão IX abafou o relatório de São Pedro Damian.
"Abafar o caso" quando se trata deles, para depois, dedos em riste, acusarem homossexuais de perpetradores de pedofilia é, desde o século XI, o que fazem alguns prelados romanos.
Karen também nos relata outro caso: no século XVII, o abuso sexual infantil era cotidianamente praticado por sacerdotes da "Ordem Religiosa das Escolas Pias", também conhecida como "Padres Escolápios", dedicada à educação de crianças de pais pobres. José de Calazans, o fundador da Ordem e hoje santo, sabia dos abusos sexuais contra as crianças e tentou "abafar o caso". O Papa Inocêncio X nomeou Stefano Cherubini, inveterado pedófilo, para dirigir uma escola da Ordem em Nápoles. Quando soube que estava ameaçado de demissão por conta dos abusos, o pedófilo padre Cherubini ameaçou destruir a Ordem contando tudo o que sabia, ou seja, ele não era o único. O santo fundador dos Padres Escolápios, José Calazans, escreveu a um amigo: "acoberte esta grande vergonha a fim de que não chegue ao conhecimento dos nossos superiores".
João Paulo II, em seu longo pontificado, enfrentou sua maior crise no caso dos escândalos dos abusos sexuais dos padres pedófilos americanos e europeus, tentando "abafar o caso" até onde conseguiu. Não demorou muito para que a imprensa do mundo inteiro relatasse o que acontecia dentro das paredes de algumas, na verdade, muitas, paróquias católicas.
O escândalo tomou proporções agudas em fevereiro de 2004, quando o Colégio de Justiça Criminal da Universidade John Jay, de Nova Iorque, publicou um relatório dando conta ao mundo de que 4% do clero americano, na segunda metade do século 20, tinham sido acusados de abuso sexual com menores. Isso equivale a 4 mil e quatrocentos padres que abusaram de cerca de 11 mil menores de idade nos Estados Unidos, metade deles sob o pontificado de João Paulo II.
Dois anos antes dessa bomba cair na Cidade do Vaticano, o mundo soube o que acontecia na Arquidiocese de Boston: os padres John Geoghan, Shanley e Birmingham estavam sendo expostos na mídia como pedófilos. O primeiro foi condenado pela Justiça do Estado de Boston por ter abusado de mais de 130 menores. Nessa época, o então Cardeal Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, encontrava-se semanalmente com João Paulo II. Nesses encontros, ele assegurava ao então Papa que menos de 1% do clero católico nos Estados Unidos eram "alvos" de denúncias, o que o relatório da Universidade John Jay mostrou ser uma mentira.
Era responsável pela Arquidiocese de Boston nesta época, o Cardeal Bernard Law, um "abafador de caso" de primeira! Law ao invés de agir corretamente no caso dos padres pedófilos, entregando-os à polícia, denunciando-os, simplesmente transferia-os de paróquias e eles ficavam assim, livres, para cometerem mais abusos contra menores. Em 2002, pressionado pela imprensa à renúncia, Law balançou... Mas João Paulo II não permitiu que ele renunciasse. Isso só veio acontecer quando a situação era insustentável, no ano de 2003. Mas em 2004, João Paulo II o presenteou como arcipreste da Basílica de Santa Maria Maior, em Roma, um alto posto na Igreja. Além disso, e até o dia de hoje, o Cardeal Law, cúmplice de muitos abusos sexuais contra menores, é membro de sete congregações e dois conselhos da Cúria Romana.
O Boston Globe, em artigo contundente na época, perguntou: "Tinha o Vaticano que escolher a mesma semana para dar posse numa Basílica romana ao principal arquiteto do desastre que as atingira (as paróquias da Arquidiocese, 357 delas fechadas pelo novo Arcebispo de Boston)? Deixemos de lado a fundamental depravação de recompensar com uma sinecura de luxo na Cidade Eterna um conivente no estupro em série de crianças. Que sinal mais claro poderia a Igreja Católica Romana enviar aos seus fiéis de que ela administra a justiça em dois níveis, um para os leigos e um outro para os clérigos?"
Basta uma rápida pesquisa no Google para saber: cerca de dois bilhões de dólares é o montante pago pela Igreja Católica Romana às vítimas infantis de abusos sexuais. Somente em 2007, a Arquidiocese de Los Angeles pagou a 508 vítimas o equivalente a 1,2 bilhão de reais (660 milhões de dólares). A Diocese de Detroit foi à falência e no último mês de dezembro, o mundo soube que durante 40 longos anos, a Igreja acobertou abusos sexuais infantis cometidos por padres na católica Irlanda. O fato ficou conhecido através de um relatório de mais de 700 páginas, cobrindo somente a Arquidiocese de Dublin, resultado de uma ampla pesquisa comandada pela juíza, Dra. Yvonne Murphy. No dia de Natal, 25 de dezembro de 2009, dois bispos irlandeses, Eamonn Walsh e Raymond Field, renunciaram devido ao escândalo.
Joaquin Navarro-Valls, numerário da Opus Dei, que durante mais de vinte anos foi o porta-voz do Vaticano na "Era João Paulo II", foi o primeiro com posto na Igreja Católica a relacionar homossexualidade e pedofilia, publicamente. Ele sempre foi taxativo em dizer à imprensa que "padres gays" são os responsáveis por tais abusos. Ora, sabemos que isso não é verdade! Sabemos, porque as pesquisas sérias sobre este nefasto tema nos informam que a maioria dos abusadores sexuais de menores são heterossexuais, 75% deles do sexo masculino, que mantém uma relação próxima e simbólica de poder sobre a vítima (pais, avôs, padrastos, tios, irmãos mais velhos, padres, pastores evangélicos...).
Estou certo que existem na Igreja Católica padres decentes, sinceros e fiéis aos ministérios ordenados, verdadeiros trabalhadores e construtores de uma sociedade mais igualitária e justa, inclusive, para homossexuais! Tenho alguns amigos padres católicos e alguns deles são homossexuais. São pessoas amorosas, sérias e que vivem em verdade o celibato imposto pelas leis da Igreja. Sei que eles também sofrem quando escutam declarações como as da semana passada, vindas do México. No entanto, contra fatos não existem argumentos e eles estão ai, claros e limpos como água mineral, para todos ficarem sabendo, de uma vez por todas, quem são os pedófilos de fato!
Aos representantes da Igreja do México e a todos os que acusam homossexuais sinceros e decentes, cujo desejo nobre é o de constituir uma família, digo em alto e bom som: calem a boca!
Estou certo que existem na Igreja Católica padres decentes, sinceros e fiéis aos ministérios ordenados, verdadeiros trabalhadores e construtores de uma sociedade mais igualitária e justa, inclusive, para homossexuais! Tenho alguns amigos padres católicos e alguns deles são homossexuais. São pessoas amorosas, sérias e que vivem em verdade o celibato imposto pelas leis da Igreja. Sei que eles também sofrem quando escutam declarações como as da semana passada, vindas do México. No entanto, contra fatos não existem argumentos e eles estão ai, claros e limpos como água mineral, para todos ficarem sabendo, de uma vez por todas, quem são os pedófilos de fato!
Aos representantes da Igreja do México e a todos os que acusam homossexuais sinceros e decentes, cujo desejo nobre é o de constituir uma família, digo em alto e bom som: calem a boca!
Renato Manfredini Jr. nasceu às 4h do dia 27 de março de 1960, na Clínica Santa Lúcia, no bairro do Humaitá, zona sul da cidade do Rio de Janeiro. Renato Russo, o cantor e compositor que nos arrebata a alma e nos leva, sempre, à reflexão fecunda, celebraria 50 anos de vida neste próximo sábado.
Na verdade, creio que este verbo acima empregado no futuro do pretérito não tem razão de ser. Na verdade, Renato Russo celebra seus 50 anos de vida e nós com ele, pois ele vivo está nas mentes e corações dos seus familiares, amigos e milhões de fãs de norte a sul deste país e fora dele. Já escreveu o poeta que não morremos, ficamos encantados; como cristão não creio na morte, creio na vida, nesta e além desta, pois "aquele que crê em mim passou da morte para a vida", disse Jesus. Ele também disse que aquele que Nele crê, ainda que morra, viverá.
Sinto-me muito à vontade para aplicar a fé cristã na permanência da vida, mesmo quando não há mais corpo físico, tratando-se de Renato Russo, pois ele, inúmeras vezes, declarou-se cristão. Mesmo se ele não fosse um cristão, estenderia a ele a minha fé na permanência na vida porque poetas não morrem; na verdade, nenhum ser humano morre, enquanto vive na lembrança dos que amam. Celebremos, pois, a vida de Renato Russo e seu meio século de existência!
Lembro-me a primeira vez que ouvi a voz inconfundível do Renato e sua poesia. Foi em 1985, eu tinha onze anos de idade, estava na sexta série do primeiro grau: "Será só imaginação? Será que nada vai acontecer? Será que é tudo isso em vão? Será que vamos conseguir vencer?" Um ano depois, em 1986, veio "Eduardo e Mônica", "Daniel na cova dos leões" (título recolhido de um conhecido texto bíblico do Antigo Testamento), "Que país é este?", "Química", em 1987.
Eu era, já nesta época, um guri muito cristão. Lia a Bíblia, frequentava a igreja, orava a Deus e cantava hinos todos os dias, mas também cantava os hinos que Renato Russo compôs e que aprendi nos LPs do Legião Urbana. Não conseguia entender porque ouvia na igreja o pastor falando mal do rock e de cantores como Renato Russo. Não conseguia entender porque minha mãe dizia que rock era "sinos do inferno", porque por mais que eu procurasse nas letras do Renato algo de "demoníaco", não encontrava.
Lembro-me que numa manhã de domingo de 1988, causei celeuma na minha igreja, durante a Escola Dominical, pois daquela vez não me calei quando ouvi, mais uma vez, o professor falar mal do rock do Legião Urbana, dentre outros. O professor como "prova" do que ele estava dizendo, citou uma passagem bíblica que relata o encontro de Jesus com um jovem possesso por um "espírito demoníaco" que quando perguntado pelo Homem de Nazaré qual era o seu nome, este respondeu: "Legião".
Lembro-me de ter dito com veemência: pois eu não vejo absolutamente nada de demônio nas músicas do Renato Russo, ao contrário, citei "Daniel na cova dos leões" para "provar" que Renato Russo também lia a Bíblia, pois onde mais ele conheceria tal história? Um ano depois, minha "tese" estaria provada com "Monte Castelo", música que ainda hoje é cantada nos quatro cantos deste país por "meninos e meninas" e que traz novo sabor ao capítulo 13 da Primeira Carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios, texto do Novo Testamento.
O álbum "As Quatro Estações" (1989), que me fez conhecer e cantar "Monte Castelo", também me trouxe "Meninos e Meninas" e me interpelou de uma maneira tão contundente em relação à minha sexualidade que jamais fui o mesmo. Um ano antes eu tivera minha primeira experiência sexual com uma pessoa do mesmo sexo, embora namorasse à época uma menina e gostava dela com sinceridade. Renato Russo, sem me conhecer, como a tantos outros como nós, me fez saber: eu não estava só, outros sentiam o que eu sentia, outros eram como eu e tinham a coragem, como ele, de dizer isso abertamente, sem medo de ser feliz. Dali por diante e durante muito tempo até eu ter a mesma coragem de me assumir, foi cantando "Meninos e Meninas" que encontrei o meu modo de não ser invisível ou confundido. Renato me deu voz.
Desde que eu entendi as letras do Renato, passei a defendê-lo quando escutava alguém chamar o Legião Urbana de "demoníaco". Dizia: como pode ser demoníaca uma música que fala do amor? Tem mais "evangelho" do que a frase: "é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã?" Não, não tem! Hoje sou um teólogo e posso garantir que tal verso é a essência do Evangelho ensinado por Jesus.
Renato foi meu "teólogo e pastor" quando eu, para viver sem culpa minha homossexualidade, me afastei da igreja institucionalizada. Porém, era em suas letras que eu encontrava o que aprendi a amar desde a infância e que, por isso, me constituía, o Evangelho. Sei que até hoje muitas meninas e muitos meninos que vivem agora os mesmos conflitos que eu então vivia, podem encontrar a essência do Evangelho em suas canções e isso faz de Renato um imortal.
Renato sempre falava de Deus e de Seu Filho Jesus Cristo em suas entrevistas. Numa delas, ele declarou: "o importante é olhar para Jesus". Numa outra, declarou: "Eu acredito em Deus" (1987), e ainda, "Deus é tudo, é vida, é amor" (1988). Contudo, nunca foi um religioso na acepção negativa da palavra, pois entendia segundo podemos concluir de suas declarações, que cristianismo não é uma religião, mas um caminho, tal qual Jesus mesmo declarou: "Eu sou o caminho". Sim, Renato entendeu e me fez entender que religião produzia e ainda produz o que a essência do Evangelho condena: divisão, separação, legalismo, desamor entre os seres humanos.
Sobre a insana "guerra santa" entre cristãos e pagãos nas Cruzadas e entre judeus e palestinos ontem e hoje, aliás, sobre toda e qualquer "guerra santa", sejam lá quais forem seus protagonistas, Renato declarou: "nenhuma guerra pode ser santa!", palavras que podemos, sem medo de "pecar", atribuir a Jesus Cristo.
Quando a roda da história da minha vida girou, Renato Russo girou comigo. No fim de 1995 conheci Manoel, meu companheiro por quase dez anos a partir de então. Como Renato Russo, ele era soropositivo. Como eu, ele também amava as poesias e as músicas do Renato. "The Stonewall Celebration Concert" (1994) e "Equilíbrio Distante" (1995) foram a trilha sonora do meu amor com Manoel.
Na fatídica sexta-feira, 11 de outubro de 1996, Manoel e eu estávamos dentro do nosso carro, saindo da Ilha do Governador - bairro carioca onde morávamos e no qual Renato Russo passou a infância e parte da juventude antes de morar em Ipanema - em direção à Barra da Tijuca. Estávamos muito felizes, assistiríamos o antológico "Âmbar", de Maria Bethânia; a voz do locutor da rádio JB FM tirou nossos sorrisos dos lábios e nos trouxe lágrimas nos olhos quando anunciou, que naquela madrugada, a vida física do nosso Renato tinha se extinguido. Paramos o carro, ainda dentro da Ilha do Governador, nos abraçamos, choramos e juramos o nosso amor. No rádio, a voz inconfundível e bela cantava: "If Tomorrow Never Comes" (Se Amanhã Nunca Chegar).
Para Manoel, fisicamente, o amanhã deixou de chegar alguns anos depois e foi e ainda é nas poesias e na música de Renato Russo que eu encontro consolo na saudade: dos dois.
Feliz aniversário, Renato! Em mim, em milhares de fãs, nos seus amigos que ainda estão aqui, nos seus familiares, você ainda vive e é a sua vida, os seus 50 anos que celebramos, agradecendo a Deus, tudo o que você é para nós.
Amor de Mãe
"Assim diz a Bíblia" ("For the Bible tells me so") é um documentário estadunidense sobre cinco famílias cristãs que enfrentaram corajosamente o fundamentalismo religioso após a descoberta da homossexualidade de seus filhos e filhas. O filme mostra contundentes análises de teólogos e pastores que desconstroem os falaciosos argumentos do fundamentalismo religioso.Assistindo "Assim diz a Bíblia" percebemos que é possível em nossa geração o que um dos profetas bíblicos definiu como sua missão: "converter os corações dos pais aos seus filhos e dos seus filhos aos seus pais". Muitas são as famílias destruídas pelo discurso dos evangélicos e católicos fundamentalistas! Neste exato momento que você lê essas linhas, pode ter certeza que em algum lugar deste planeta um homossexual está sendo expulso de casa porque seus pais aprenderam na igreja com o pastor ou padre que "homossexualismo" (sic) é abominação para Deus e que "são dignos de morte os que tais coisas praticam" (Romanos 1.32). Como não têm coragem de matarem os próprios filhos e filhas literalmente, matam em seus corações, expulsando-os do lar.
Um dos depoimentos mais emocionante e também chocante do filme é o de Mary Lou Wallner (foto ao lado), da cidade de Cabot/Arkansas. Mary Lou é a mãe de Anna, uma linda americana de olhos azuis, que aos dez meses de idade já balbuciava o hino cristão, que diz: "Yes, Jesus loves me! This I know, for the Bible tells me so" (Sim, Jesus me ama! Isso eu sei, porque assim diz a Bíblia).
Anna escreveu uma carta à sua mãe que contava que ela era diferente das demais meninas da universidade onde estudava, pois amava meninas e não meninos. Na carta ela escreveu sobre a angústia que sentia desde que se descobriu diferente das demais meninas, pedia à mãe compreensão, afeto, amor enfim.
Mary Lou respondeu por escrito que a amava, mas que odiava a homossexualidade de Anna, porque a Bíblia diz que homossexualidade é uma abominação para Deus. Recheou sua carta com versículos bíblicos tirados do seu contexto (como o acima citado) para que a filha não tivesse dúvidas que, para Deus, o que ela sentia era algo abominável. Anna não segurou a dor da rejeição de sua mãe, afinal, ser lésbica era parte dela, era ela, e tirou sua própria vida, pendurando-se no seu quarto.
Devastada pelo suicídio de Anna, Mary Lou conheceu a teologia inclusiva. Conheceu outras famílias cristãs que passaram pelo que ela estava passando e com eles estudou profundamente as Escrituras. A descoberta da verdade acerca do que realmente diz a Bíblia sobre a homossexualidade e a revelação de um Deus de Amor, conforme proclamado por Jesus não jogou a pá de cal sobre Mary Lou. Antes, a levantou do monturo existencial sobre o qual jazia para a militância por uma igreja inclusiva de fato e pelos direitos dos LGBTs em seu país, tornando-a uma das mais aguerridas militantes pela causa LGBT, enfrentando frente a frente as mentiras dos fundamentalistas religiosos e tombando-os com a verdade agora descoberta.
Escrevo essa coluna há dez meses. De maio de 2009 até o presente momento, tenho recebido inúmeras boas surpresas na vida, uma delas, é que há um mês multiplicam-se os e-mails em minha caixa postal de mães de LGBTs que me leem aqui no A Capa. Sim, muitas mães brasileiras estão me escrevendo pedindo auxílio para compreenderem a sexualidade de seus filhos e filhas; são mães cristãs (pais também, mas em menor número). Este artigo é a resposta pública que dou a uma delas, na verdade, a minha tréplica.
Duas semanas atrás recebi um e-mail de uma mãe de São Paulo, integrante de uma importante e conhecida Igreja Batista desta capital. Ela é mãe de três filhos e um deles, o do meio, é gay. Esta mãe e seu esposo estavam passando por uma imensa crise há cerca de um ano, desde que seu filho foi excluído do rol de membros de sua igreja, não antes de ter sido exposto diante de inúmeras pessoas de sua congregação. O resultado do que ela chamou de "calvário" foi ver seu filho profundamente deprimido, um jovem que antes era cheio de força, vigor e saúde mental, entregue aos remédios receitados por um especialista. Além disso, seu esposo jamais retornou à igreja e seus outros filhos, se recusavam também. Ela era a única que persistia em voltar à igreja "de cabeça erguida", pois até aquele momento, "sentia" que o certo tinha sido feito: seu filho é uma abominação para Deus e estava sofrendo as conseqüências do seu "pecado".
O que esta mãe não entendia era porque, se o certo tinha sido feito, sua família que antes era uma família saudável e feliz, estava partida, sofrendo profundamente; e me perguntava: "aprendi na minha igreja que Deus ama o pecador, mas odeia o pecado. Quero saber de você que escreve neste site gay que Deus ama os homossexuais, de onde você tira essa certeza. Preciso saber disso com urgência, pois minha família está em crise e temo perdê-la".
Em minha resposta, enviei em anexo um estudo sobre Bíblia e Homossexualidade; pedi que ela lesse com atenção toda a apostila, mas não sozinha, que fizesse isso junto aos filhos e seu esposo. Também indiquei o documentário "Assim diz a Bíblia", reforçando que ela não deveria vê-lo sozinha, mas com a família reunida; que anotasse todas as suas dúvidas e que me escrevesse novamente.
Recebi sua resposta no dia 08 de março, Dia Internacional da Mulher e meu aniversário. Foi o melhor presente que recebi neste ano! Agora, assinava ela e seu esposo e eu pude sentir a emoção e o amor deles naquele e-mail. Neste, eles agradeciam muito os textos e a indicação dos filmes e que não tinham dúvidas alguma, pois o que leram e assistiram foi cura para tudo o que estavam passando até ali. Escreveram: "a missão de um profeta é também converter os corações dos pais aos filhos e vice-versa e isto foi o que seu trabalho profético fez aqui em nosso lar. Deus o abençoe!" Pediam indicação de uma igreja inclusiva e prometeram reunir a família para, no próximo domingo, estarem lá juntos, como fizeram tantas vezes no passado.
Vocês, mães queridas, que neste momento estão lendo este artigo, não precisam passar a dor que Mary Lou Wallner passou; nem precisam passar pelo "calvário" que esta mãe de São Paulo passou para se converterem aos seus filhos e filhas LGBTs. Deus é Amor e tudo o que não promove o amor, mas causa divisão, dor, sofrimento, suicídio, morte, trevas, doenças e separação não pode vir de Deus, nem de pessoas de Deus. A religião que escolhe o fundamentalismo como via tem as mãos sujas do sangue de Anna Wallner e de milhões de gays e lésbicas, travestis e transexuais que tombam, diariamente, sem vida ao chão.




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